Bate Papo

Entrevista com Fred Gelli – Sócio–diretor de Criação da Tátil Design de Ideias e Professor do departamento de Design da PUC-RJ, há 10 anos. Conquistou mais de 80 prêmios nacionais e internacionais, entre eles o iF Design Award; IDEA –USA; D&AD; Cannes Lions; Caboré.

1- Como inovações em design podem ajudar a promover o desenvolvimento sustentável?

Em minha opinião, o design terá a cada dia um papel mais estratégico no processo de redesenho da nossa relação com o planeta, com o consumo, com o bem-estar. O design é a profissão que tem a conexão mais natural com “inovação” por ser uma atividade essencialmente multidisciplinar. Costumo brincar com os meus alunos da PUC que o designer é o cara que não conhece profundamente nada! E nem deveria… Nós temos que conhecer “quem conhece”, e simplesmente promover a aproximação dos saberes. Hoje, a maioria dos desafios com o qual nos deparamos na direção de um modo de vida sustentável exige abordagens multidisciplinares. E aí o designer entra como um “agente catalisador”, conectando “saberes”, gerando inovação.

2- Em sua opinião quais mal-entendidos são cometidos, em nome da sustentabilidade, por empresas e agências de comunicação?

Basicamente, a grande maioria das empresas já entendeu que elas precisam, de alguma forma, se conectar com o grande movimento pela sustentabilidade, e a pressão nessa direção vem de todos os lados: os consumidores, as novas leis, a concorrência etc. O problema é que as empresas acreditam que para se tornarem “verdes” basta seguir uma cartilha básica, que inclui coisas, como trocar o papel virgem por reciclado nos escritórios, plantar árvores, eventualmente mandar um dinheirinho pra uma ONG qualquer e, claro, fazer muita propaganda disso tudo… Isso de fato produz muito pouco resultado. Os consumidores (prefiro “desfrutadores”, mas isso é outra história…) percebem que essa estratégia é vazia e a credibilidade das marcas vai embora. As pesquisas mostram que quase 80% das pessoas não acreditam em uma só palavra do que as marcas dizem quando o tema é sustentabilidade. E o que é o pior, as marcas que, de fato, têm projetos consistentes entram no mesmo saco! É aí que entra nossa visão do Branding 3.0 que propõe uma abordagem de branding para a construção de um caminho sustentável legítimo para as marcas fundamentadas na essência de cada uma (ver apresentação no blog http://www.branding30.com.br)

3- É possível encontrar soluções para os problemas das metrópoles estudando o funcionamento de ecossistemas e outros elementos naturais?

Eu acredito profundamente que sim! A natureza esta aí há 4 bilhões de anos aprimorando projetos com variáveis supercomplexas que são fonte inesgotável de inspiração para o novo modelo de ocupação do planeta que temos que desenhar. E o que é melhor: é totalmente “copy left”. Você não precisa pagar direitos autorais pra ninguém! É só copiar… As inspirações vão desde uma dimensão “mecânica” onde podemos aprender a “embalar, estruturar, espalhar” etc. com os inúmeros projetos muitíssimo bem-sucedidos da natureza, mas também existe um espaço enorme para a busca de inspiração em uma dimensão mais filosófica, mais estratégica. Nós, por exemplo, na Tátil, estamos desenvolvendo um projeto em parceria com a FGV de Curitiba sobre BioNegócios. Que nada mais é do que entender como a natureza faz negócios! Entendemos que todos os ecossistemas são grandes ambientes de negócios, onde troca de energia e matéria acontece o tempo todo entre os vários indivíduos e espécies que o compõem. São negócios onde todos ganham. Negócios com ciclo fechado e, naturalmente, com toda uma “lógica” por trás completamente sustentável! Estamos estudando os bancos de corais, buscando inspirações exatamente para situações que vivemos nas metrópoles, como sistemas de comunicação, descarte de resíduos, superpopulação etc.

4-O Brasil está atrasado ou avançado em pesquisas e projetos na área de biomimética?

Infelizmente muito me surpreende que o mundo pareça estar atrasado em pesquisas na área da Biomimética! Existem apenas projetos e profissionais isolados envolvidos em projetos dessa natureza. Mas por outro lado, sinto que existe uma conexão quase que instintiva a essa abordagem quando a lógica da bioinspiração é apresentada pra plateias de um modo geral. Sinto isso a cada palestra que faço sobre esse assunto. Acredito que, em breve, o mundo acadêmico e empresarial irão acordar para essa fonte de inspiração revolucionária que representa um fabuloso atalho para o grande desafio de nos tornar sustentáveis nesse planeta.

5- Quais são os maiores obstáculos que enfrentamos para a adoção de um modelo de produção e consumo mais sustentável?

Primeiro, acho que a perda de conexão entre homem e natureza gera essa miopia aguda na nossa visão de prioridades, na formulação dos nossos conceitos de bem-estar, crescimento etc. A ganância também tem sido um grande obstáculo, manifestada na tentativa desesperada de extração das últimas gotas de lucro de modelos de negócios, “bandeirosamente” ineficientes, e altamente agressivas à vida. Claro, que nossa capacidade de nos reproduzir e de nos adaptar a todos os ambientes da terra também faz da espécie humana uma “praga” no planeta, dificultando muito a visualização de um modo de vida que viabilize o bem-estar de quase 7 bilhões de indivíduos de uma forma sustentável. Mas sou otimista, e acho que nós somos uma “praga” genial! E por conta disso, com um temperinho biológico do instinto de sobrevivência gritando nos nossos ouvidos que, na verdade o que está em risco não é o planeta, mas a nossa permanência nele, iremos nos superar e teremos a chance de transformar toda essa crise em oportunidade, abrindo frente para uma grande revolução no mundo dos negócios suportado pela “danada” da tecnologia que a própria mãe natureza nos fez capaz de inventar!

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